LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
A Idia do Ezequiel Maia, de Machado de Assis


Edio de Referncia: Obra Completa, de Machado de Assis, vol. II, 
Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994. 

A idia do Ezequiel Maia era achar um mecanismo que lhe permitisse rasgar o vu ou 
revestimento ilusrio que d o aspecto material s cousas. Ezequiel era idealista. Negava 
abertamente a existncia dos corpos. Corpo era uma iluso do esprito, necessria aos 
fins prticos da vida, mas despida da menor parcela de realidade. Em vo os amigos lhe 
ofereciam finas viandas, mulheres deleitosas, e lhe pediam que negasse, se podia, a 
realidade de to excelentes cousas. Ele lastimava, comendo, a iluso da comida; 
lastimava-se a si mesmo, quando tinha ante si os braos magnficos de uma senhora. 
Tudo concepo do esprito; nada era nada. Esse mesmo nome de Maia no o tomou ele, 
seno como um smbolo. Primitivamente, chamava-se Nbrega; mas achou que os hindus 
celebram uma deusa, me das iluses, a que do o nome de Maia, e tanto bastou para 
que trocasse por ele o apelido de famlia. 
A opinio dos amigos e parentes era que este homem tinha o juzo a juros naquele banco 
invisvel, que nunca paga os juros, e, quando pode, guarda o capital. Parece que sim; 
parece tambm que ele no tocou de um salto o fundo do abismo, mas escorregando, 
indo de uma restaurao da cabala para outra da astrologia, da astrologia  quiromancia, 
da quiromancia  charada, da charada ao espiritismo, do espiritismo ao niilismo idealista. 
Era inteligente e lido; formara-se em matemticas, e os professores desta cincia diziam 
que ele a conhecia como gente. 
Depois de largo cogitar, achou Ezequiel um meio: abstrair-se pelo nariz. Consistia em 
fincar os olhos na extremidade do nariz,  maneira do faquir, embotando a sensibilidade 
ao ponto de perder toda a conscincia do mundo exterior. Cairia ento o vu ilusrio das 
cousas; entrar-se-ia no mundo exclusivo dos espritos. Dito e feito. Ezequiel metia-se em 
casa, sentava-se na poltrona, com as mos espalmadas nos joelhos, e os olhos na ponta 
do nariz. Pela afirmao dele, a abstrao operava-se em vinte minutos, e poderia fazerse mais cedo, se ele no tivesse o nariz to extenso. A inconvenincia de um nariz 
comprido  que o olhar, desde que transpusesse uma certa linha, exercia mais facilmente 
a miservel funo ilusria. Vinte minutos, porm, era o prazo razovel de uma boa 
abstrao. O Ezequiel ficava horas e horas, e s vezes dias e dias, sentado, sem se 


mexer, sem ver nem ouvir; e a famlia (um irmo e duas sobrinhas) preferia deix-lo 
assim, a acord-lo; no se cansaria, ao menos, na perptua agitao do costume. 

 Uma vez abstrato, dizia ele aos parentes e familiares, liberto-me da iluso dos 
sentidos. A aparncia da realidade extingue-se, como se no fosse mais do que um fumo 
sutil, evaporado pela substncia das cousas. No h ento corpos; entesto com os 
espritos, penetro-os, revolvo-os, congrego-me, transfundo-me neles. No sonhaste a 
noite passada comigo, Micota? 
 Sonhei, titio, mentia a sobrinha. 
 No era sonho; era eu mesmo que estava contigo; por sinal que me pedias as festas, e 
eu prometi-te um chapu, um bonito chapu enfeitado de plumas... 
 Isso  verdade, acudia a sobrinha. 
 Tudo verdade, Micota; mas a verdade nica e verdadeira. No h outra; no pode 
haver verdade contra verdade, assim como no h sol contra sol. 
As experincias do Ezequiel repetiram-se durante seis meses. Nos dous primeiros meses, 
eram simples viagens universais; percorria o globo e os planetas dentro de poucos 
minutos, aniquilava os sculos, abrangia tudo, absorvia tudo, difundia-se em tudo. Saciou 
assim a primeira sede da abstrao. No terceiro ms, comeou uma srie de excurses 
analticas. Visitou primeiramente o esprito do padeiro da esquina, de um barbeiro, de um 
coronel, de um magistrado, vizinhos da mesma rua; passou depois ao resto da parquia, 
do distrito e da capital, e recolheu quantidade de observaes interessantes. No quarto 
ms empreendeu um estudo que lhe comeu cinqenta e seis dias: achar a filiao das 
idias, e remontar  primeira idia do homem. Escreveu sobre este assunto uma extensa 
memria, em que provou a todas as luzes que a primeira idia do homem foi o crculo, 
no sendo o homem simbolicamente outra cousa:  um crculo lgico, se o 
considerarmos na pura condio espiritual; e se o tomarmos com o invlucro material, um 
crculo vicioso. E exemplificava. As crianas brincam com arcos, fazem rodas umas com 
as outras; os legisladores parlamentares sentam-se geralmente em crculo, e as 
constantes alteraes do poder, que tanta gente condena, no so mais do que uma 
necessidade fisiolgica e poltica de fazer circular os homens. Que so a infncia e a 
decrepitude, seno as duas pontas ligadas deste crculo da vida? Tudo isso lardeado de 
trechos latinos, gregos e hebraicos, verdadeiro pesadelo, fruto indigesto de uma 
inteligncia pervertida. No sexto ms... 
 Ah! meus amigos, o sexto ms  que me trouxe um achado sublime, uma soluo ao 
problema do senso moral. Para os no cansar; restrinjo-me ao exame comparativo que fiz 
em dous indivduos da nossa rua, o Neves do n 25, e o Delgado. Sabem que eles ainda 
so parentes. 

E a comeou o Ezequiel uma narrao to extraordinria, que os amigos no puderam 
ouvir sem algum interesse. Os dous vizinhos eram da mesma idade, mais ou menos, 
quarenta e tantos anos, casados, com filhos, sendo que o Neves liquidara o negcio 
desde algum tempo, e vivia das rendas, ao passo que o Delgado continuara o negcio, e 
justamente falira trs semanas antes. 

 Vocs lembram-se ter visto o Delgado entrar aqui em casa um dia muito triste? 
Ningum se lembrava, mas todos disseram que sim. 
 Desconfiei do negcio, continuou o Ezequiel, abstra-me, e fui direito a ele. Achei-lhe a 
conscincia agitada, gemendo, contorcendo-se; perguntei-lhe o que era, se tinha 
praticado alguma morte, e respondeu-me que no; no praticara morte nem roubo, mas 
espancara a mulher, metera-lhe as mos na cara, sem motivo, por um assomo de clera. 
Clera passageira, disse-lhe, e uma vez que faam as pazes...  Esto feitas, acudiu ele; 
Zeferina perdoou-me tudo, chorando; ah! doutor,  uma santa mulher!  E ento?  Mas 
no posso esquecer que lhe dei, no me perdo isto; sei que foi na cegueira da raiva, 
mas no posso perdoar-me, no posso. E a conscincia tornou a doer-lhe, como a 
princpio, inquieta, convulsa. D c aquele livro, Micota. 
Micota trouxe-lhe o livro, um livro manuscrito, in folio, capa de couro escuro e lavrado. O 
Ezequiel abriu-o na pgina 140, onde o nome do Delgado estava escrito com esta nota: 
 "Este homem possui o senso moral". Escrevera a nota, logo depois daquele episdio; e 
todas as experincias futuras no vieram seno confirmar-lhe a primeira observao. 
 Sim, ele tem o senso moral, continuou o Ezequiel. Vocs vo ver se me enganei. Dias 
depois, tendo-me abstrado, fui logo a ele, e achei-o na maior agitao.  Adivinho, 
disse-lhe; houve outra expanso muscular, outra correo... No me respondeu nada; a 
conscincia mordia-se toda, presa de um furor extraordinrio. Como se apaziguasse de 
quando em quando, aproveitei os intervalos para teimar com ele. Disse-me ento que 
jurara falso para salvar um amigo, ato de covardia e de impiedade. Para atenu-lo, 
lembrava-se dos tormentos da vspera, da luta que sustentara antes de jazer a promessa 
de ir jurar falso; recordava tambm a amizade antiga ao interessado, os favores 
recebidos, uns de recomendao, outros de amparo, alguns de dinheiro; advertia na 
obrigao de retribuir os benefcios, na ridicularia de uma gratido terica, sentimental, e 
nada mais. Quando ele amontoava essas razes de justificao ou desculpa,  que a 
conscincia parecia tranqila; mas, de repente, todo o castelo voava a um piparote desta 
palavra: "No devias ter jurado falso". E a conscincia revolvia-se, frentica, desvairada, 
at que a prpria fadiga lhe trazia algum descanso. 
Ezequiel referiu ainda outros casos. Contou que o Delgado, por sugestes de momento, 
faltara algumas vezes  verdade, e que, a cada mentira, a conscincia raivosa dava 

sopapos em si mesma. Enfim, teve o desastre comercial, e faliu. O scio, para abrandar a 
inclemncia dos fados, props-lhe um arranjo de escriturao. Delgado recusou a ps 
juntos; era roubar os credores, no devia faz-lo. Debalde o scio lhe demonstrava que 
no era roubar os credores, mas resguardar a famlia, cousa diferente. Delgado abanou a 
cabea. No e no; preferia ficar pobre, miservel, mas honrado; onde houvesse um 
recanto de cortio e um pedao de carne-seca, podia viver. Demais, tinha braos. Vieram 
as lgrimas da mulher, que lhe no pediu nada mas trouxe as lgrimas e os filhos. Nem 
ao menos as crianas vieram chorando; no, senhor; vieram alegres, rindo, pulando 
muito, sublinhando assim a crueldade da fortuna. E o scio, ardilosamente ao ouvido:  
Ora vamos; veja voc se  lcito trair a confiana destes inocentes. Veja se... Delgado 
afrouxou e cedeu. 

 No, nunca me h de esquecer o que ento se passou naquela conscincia, continuou
o Ezequiel; era um tumulto, um clamor, uma convulso diablica, um ranger de dentes,
uma cousa nica. O Delgado no ficava quieto trs minutos; ia de um lado para outro,
atnito, fugindo a si mesmo. No dormiu nada a primeira noite. De manh saiu para andar
 toa; pensou em matar-se; chegou a entrar em uma casa de armas,  Rua dos Ourives,
para comprar um revlver, mas advertiu que no tinha dinheiro, e retirou-se. Quis deixar
se esmagar por um carro. Quis enforcar-se com o leno. No pensava no cdigo; por
mais que o revolvesse, no achava l a idia da cadeia. Era o prprio delito que o
atormentava. Ouvia vozes misteriosas que lhe davam o nome de falsrio, de ladro; e a
conscincia dizia-lhe que sim, que ele era um ladro e um falsrio. s vezes pensava em
comprar um bilhete de Espanha, tirar a sorte grande, convocar os credores, confessar
tudo, e pagar-lhes integralmente, com juro, um juro alto, muito alto, para puni-lo do
crime... Mas a conscincia replicava logo que era um sofisma, que os credores seriam
pagos,  verdade, mas s os credores. O ato ficava intacto. Queimasse ele os livros e
dispersasse as cinzas ao vento, era a mesma cousa; o crime subsistia. Assim passou trs
noites, trs noites cruis, at que no quarto dia, de manh, resolveu ir ter com o Neves e
revelar-lhe tudo.
 Descanse, titio, disse-lhe uma das sobrinhas, assustada com o fulgor dos olhos do
Ezequiel.
Mas o Ezequiel respondeu que no estava cansado, e contaria o resto.
O resto era estupendo. O Neves lia os jornais no terrao, quando o Delgado lhe apareceu.
A fisionomia daquele era to bondosa, a palavra com que o saudou  "Anda c, Juca!"
vinha to impregnada da velha familiaridade, que o Delgado esmoreceu. Sentou-se ao p
dele, acanhado, sem fora para lhe dizer nem lhe pedir nada, um conselho, ou, quando
menos, uma consolao. Em que lngua narraria o delito a um homem cuja vida era um

modelo, cujo nome era um exemplo? Viveram juntos; sabia que a alma do Neves era 
como um cu imaculado, que s interrompia o azul para cravej-lo de estrelas. Estas 
eram as boas palavras que ele costumava dizer aos amigos. Nenhuma ao que o 
desdourasse. No espancara a mulher, no jurara falso, no emendara a escriturao, 
no mentiu, no enganou ningum. 

 Que tem voc? perguntou o Neves. 
 Vou contar-lhe uma cousa grave, explodiu o Delgado; peo-lhe desde j que me 
perdoe. 
Contou-lhe tudo. O Neves, que a princpio o ouvira com algum medo, por ele lhe ter 
pedido perdo, depressa respirou; mas no deixou de reprovar a imprudncia do 
Delgado. Realmente, onde tinha ele a cabea para brincar assim com a cadeia? Era 
negcio grave; urgia abaf-lo, e, em todo caso, estar alerta. E recordava-lhe o conceito 
em que sempre teve o tal scio.  "Voc defendia-o ento; e a tem a bela prenda. Um 
maluco!" O Delgado, que trazia consigo o remorso, sentiu incutir-se-lhe o terror; e, em vez 
de um remdio, levou duas doenas. 
"Justos cus! exclamou consigo o Ezequiel, dar-se- que este Neves no tenha o senso 
moral?" 
No o deixou mais. Esquadrinhou-lhe a vida; talvez alguma ao do passado, alguma 
cousa... Nada; no achou nada. As reminiscncias do Neves eram todas de uma vida 
regular, metdica, sem catstrofes, mas sem infraes. O Ezequiel estava atnito. No 
podia conciliar tanta limpeza de costumes com a absoluta ausncia de senso moral. A 
verdade, porm,  que o contraste existia. Ezequiel ainda advertiu na sutileza do 
fenmeno e na convenincia de verific-lo bem. Disps-se a uma longa anlise. Entrou a 
acompanhar o Neves a toda a parte, em casa, na rua, no teatro, acordado ou dormindo, 
de dia ou de noite. 
O resultado era sempre o mesmo. A notcia de uma atrocidade deixava-o interiormente 
impassvel; a de uma indignidade tambm. Se assinava qualquer petio (e nunca 
recusou nenhuma) contra um ato impuro ou cruel, era por uma razo de convenincia 
pblica, a mesma que o levava a pagar para a Escola Politcnica, embora no soubesse 
matemticas. Gostava de ler romances e de ir ao teatro; mas no entendia certos lances 
e expresses, certos movimentos de indignao, que atribua a excessos de estilo. 
Ezequiel no lhe perdia os sonhos, que eram, s vezes, extraordinrios. Este, por 
exemplo: sonhou que herdara as riquezas de um nababo, forjando ele mesmo o 
testamento e matando o testador. De manh, ainda na cama, recordou todas as 
peripcias do sonho, com os olhos no teto, e soltou um suspiro. 
Um dia, um fmulo do Neves, andando na rua, viu cair uma carteira do bolso de um 

homem, que caminhava adiante dele, apanhou-a e guardou-a. De noite, porm, surgiu-lhe 
este caso de conscincia:  se um cado era o mesmo que um achado. Referiu o negcio 
ao Neves, que lhe perguntou, antes de tudo, se o homem vira cair a carteira; sabendo que 
no, levantou os ombros. Mas, conquanto o fmulo fosse grande amigo dele, o Neves 
arrependeu-se do gesto, e, no dia seguinte, comendou-lhe a entrega da carteira; eis as 
circunstncias do caso. Indo de bond, o condutor esqueceu-se de lhe pedir a passagem; 
Neves, que sabia o valor do dinheiro, saboreou mentalmente esses duzentos ris cados; 
mas advertiu que algum passageiro poderia ter notado a falta, e, ostensivamente, por 
cima da cabea de outros, deu a moeda ao condutor. Uma idia traz outra; Neves 
lembrou-se que algum podia ter visto cair a carteira e apanh-la o fmulo; foi a este, e 
compeliu-o a anunciar o achado. "A considerao pblica, Bernardo, disse ele,  a 
carteira que nunca se deve perder." 
Ezequiel notou que este adgio popular  ladro que furta a ladro tem cem anos de 
perdo  estava incrustado na conscincia do Neves, e parecia at inventado por ele. Foi 

o nico sentimento de horror ao crime, que lhe achou; mas, analisando-o, descobriu que 
no era seno um sentimento de desforra contra o segundo roubado, o aplauso do logro, 
uma consolao no prejuzo, um antegosto do castigo que deve receber todo aquele que 
mete a mo na algibeira dos outros. 
Realmente, um tal contraste era de ensandecer ao homem mais ajuizado do universo. O 
Ezequiel fez essa mesma reflexo aos amigos e parentes; acrescentou que jurara aos 
seus deuses achar a razo do contraste, ou suicidar-se. Sim, ou morreria, ou daria ao 
mundo civilizado a explicao de um fenmeno to estupendo como a contradio da 
conscincia do Neves com as suas aes exteriores... Enquanto ele falava assim, os 
olhos chamejavam muito. Micota, a um sinal do pai, foi buscar  janela uma das 
quartinhas dgua, que ali estavam ao fresco, e trouxe-a a Ezequiel. Profundo Ezequiel! 
tudo entendeu, mas aceitou a gua, bebeu dous ou trs goles, e sorriu para a sobrinha. E 
continuou dizendo que sim, senhor, que acharia a razo, que a formularia em um livro de 
trezentas pginas... 
 Trezentas pginas, esto ouvindo? Um livro grosso assim... 
E estendia trs dedos. Depois descreveu o livro. Trezentas pginas, com estampas, uma 
fotografia da conscincia do Neves e outra das suas aes. Jurava que ia mandar o livro 
a todas as academias do universo, com esta concluso em forma de epgrafe: "H 
virtualmente um pequeno nmero de gatunos, que nunca furtaram um par de sapatos". 
 Coitado! diziam os amigos descendo as escadas. Um homem de tanto talento! 
Ncleo Pesquisas em Informtica. Literatura e Lingstica 


